domingo, 11 de abril de 2021

Abre-se mais um cantinho na memória - uma janela para a infância

 

 

Morávamos em um espaçoso bangalô de madeira com quatro quartos construído em um terreno de pouco mais de setecentos metros quadrados. Ali, nesse espaço exíguo, tínhamos tudo o que uma pequena chácara pode conter. A trinta metros para leste ficava a lagoa de Barra Velha. Mais alguns metros e lá estava o mar. Ah... o mar!...

Um prolongamento na parte de trás da casa, abrigava banheiro, lavanderia e mais tudo o que não podia estar no interior da casa. Um depósito de trecos importantes e necessários para uma ocasião de serventia. Isto é: tudo o que se possa imaginar.

Havia grandes gramados nos dois lados da casa.  Ao abrir a janela do nosso quarto, meu, da minha irmã e do meu irmão, que ficava voltado para o lado do mar, deparávamo-nos com um desses gramados, onde havia uma rede. Esse era o local em que minha irmã e eu gostávamos de ficar ora balançando na rede, ora deitadas de costas na grama observando as nuvens. “Vai desaparecer... vai desparecer... vai desaparecer...”, repetíamos, e lá se iam elas povoar o imaginário de outras crianças em outro lugar longínquo. E, ainda apreciando as nuvens, encontrávamos muitos personagens que, por certo, moravam por aquelas bandas. Eram cães, cavalos, peixes e tantos outros os quais nossa visão infantil aguçada nos permitia descobrir. Era ali que fazíamos o lanche da tarde, que tomávamos a deliciosa limonada, feita com os limões colhidos em nosso quintal.

No outro lado da casa havia outro verdejante gramado. Um razoável espaço em frente a ele era reservado para o jardim da minha mãe. Ela desenhava os canteiros e contava com a ajuda de um menino contratado para a execução de seu arrojado projeto. Mudava várias vezes ao longo do ano, de acordo com as flores de cada estação. As pessoas que passavam pela rua paravam para apreciar a beleza do jardim tão bem cuidado e com tanto bom gosto. Ficava mesmo maravilhoso. Esse gramado tinha tripla finalidade. Estender as roupas para secar num varal construído sobre ele, colocar as roupas mais encardidas na grama para que o sol as alvejasse e, quando já éramos maiores, virava nossa quadra de vôlei.

Nos fundos do quintal ficava a horta. Eram várias leiras organizadas pela minha mãe e seu ajudante, onde ela cultivava toda sorte de verduras e legumes. Meu pai se encarregava de não deixar faltar muita terra fértil e insumos para que tivéssemos uma alimentação saudável. Foi nesse lugar que minha irmã Graça e eu estávamos brincando de acertar com pedras a cerca da vizinha, a frau Salfer. De repente, um pintinho que estava ali, no lugar errado, na hora errada, rodopiou e caiu sem vida! Falei: - Guria! Tu mataste o pintinho! E ela: - Não! Deu um “ar” nele! Pode ver a marca da pedra que eu atirei aqui na cerca! Nunca irei saber o que, ou quem tirou a vida daquele pobre animalzinho que, rebelde, fugira de sua mãe. Até hoje lembramos essa história e nos colocamos a dar risadas.

Entre o prolongamento da casa e a horta ainda havia uma enorme árvore frondosa. Linda! Ao lado, mais tarde, foi construída a garagem, sacrificando boa parte do galinheiro que ficava também nos fundos do quintal, mas na extremidade oeste. Minha casa, a casa da minha infância, era um mini zoológico, dada a quantidade de animais que criávamos. Essa era tarefa do meu pai. Ele gostava de caçar então tinha um bom cachorro de caça e outros menores para ajudar na captura. Um de seus cães, o Patusco, foi morto, atropelado por um avião. Explico. O senhor Alonso Braga, um fazendeiro do sul de São Paulo, tinha casa de veraneio no centro da vila e uma propriedade mais afastada onde criava bois zebu. Pois bem. Esse fazendeiro tinha um filho aviador que aterrissava seu teco-teco em plena faixa de areia da praia, bem em frente à casa de seu pai. Na época, a faixa de areia era bem extensa e firme. Em um momento desses, meu pai passava por ali com Patusco, que correu a latir para aquele estranho objeto, quando o trem de pouso bateu violentamente em sua cabeça. Lamentável!

Com esse trágico episódio interrompo aqui essa narrativa, pois ela já atingiu um tamanho máximo para não cansar meus leitores. No entanto há ainda muito o que registrar sobre o que vejo nessa janela recém-aberta pela minha memória.

Irei retomá-lo em outro momento, antes que que ela se feche. Direi apenas,

Continua...

domingo, 28 de março de 2021

A historia de amor entre a bela caiçara e o jovem burguês


 

Essa bucólica historinha é baseada em fatos reais. Ela me foi contada por alguém, cuja identidade a minha memória teima em esconder. Vou vesti-la com trajes românticos, mas todos sabemos que a realidade nem sempre corresponde aos nossos sonhos e fantasias.

Eles formavam o casal mais improvável da pacata cidade. Ele, membro de aristocrática família recém vinda de Portugal, cujo patriarca ocupava cargo importante na diplomacia política da época. Um jovem que, como em qualquer família burguesa, vinha sendo educado para seguir uma carreira brilhante, fazer um “bom” casamento e ter uma vida normal, de acordo com os costumes e padrões da alta sociedade local. Aliás, ainda é assim em qualquer sociedade atual. Acontece que, ter uma vida normal, não estava nos planos do nosso personagem. Ele era considerado a alma livre da família.

Ela, uma caiçara, com ascendência muito próxima dos indígenas que por ali viviam desde tempos imemoriais, os donos da terra. Dela, pouco ou nada se sabe. Infelizmente. A única informação que se tem dela: era uma índia! Muito embora hoje saibamos tratar-se de um ser humano ímpar, dona de um coração capaz de grandes obras, de belíssimas atitudes.

E o jovem burguês, em busca de aventuras, conheceu a bela caiçara e os dois envolveram-se em um romance inconsequente. Apaixonaram-se e já faziam planos de uma vida a dois, logo desencorajados pela família dele. Toda a luta foi vã. Não o levaram a sério.

Não demorou muito para que a bela caiçara anunciasse a vinda de um herdeiro. E agora? O que fazer? Sem nenhum apoio da família, resolveram embarcar para o sul, onde tinham conhecidos que moravam em Joinville, para tentar iniciar a vida a dois, quase três.

Assim planejaram, assim fizeram. O casal embarcou em um barco a vapor e rumou para onde acreditavam encontrar seu futuro e sua felicidade. A cidade de Joinville, em Santa Catarina.

Chegaram ao Porto de São Francisco do Sul e entraram, pela Baía da Babitonga, na Lagoa de Saguassu. Desta rumaram, pelo rio Cachoeira, até o porto do Bucarein. Estavam em Joinville. Cabe aqui salientar o desconforto sofrido por nossa personagem nessa viagem tão difícil, em plena primeira gestação, inexperiente e sem orientação

Afinal, foram bem recebidos pelos amigos, moradores do local e acabaram ficando na cidade por algum tempo. Cerca de três anos. Vivia-se, nesse tempo, o ano de 1917. O jovem burguês obrigou-se a arranjar um trabalho, pois a chegada de seu primogênito era iminente. Exerceu o ofício de padeiro. Em outubro nasce o bebê. Uma menina! Não demorou quase nada, talvez uns dois anos e outra menina veio a nascer.

A família aumentando, junto com ela os compromissos e a responsabilidade. O casal decidiu então voltar para a cidade de onde haviam saído anos antes. Ali estavam suas raízes, quem sabe apareceriam melhores oportunidades para criar suas filhas.

Ali nasceram mais uma menina, a terceira filha, e o único filho homem do casal. Era o amor multiplicado por quatro. Família grande, resolveram tentar a sorte na capital. Mudaram-se todos para São Paulo. Aí nasceu a quarta filha. O improvável casal e seus cinco filhos.

A bela caiçara cuidou e amou seu jovem burguês até que a morte o levou. Um amor puro e forte os uniu a ponto de vencerem a barreira do preconceito logo no início de sua união, assim como todos os outros obstáculos que a vida lhes apresentou.

Havia entre eles um amor tão intenso que, passados apenas trinta dias da partida de seu escolhido, ela o acompanhou para, na eternidade, darem continuidade àquela história bucólica do amor entre a bela caiçara e o jovem burguês. O Senhor os abençoa e os ampara a eles e aos filhos, agora todos juntos no ambiente indescritível onde, por certo, devem estar.

segunda-feira, 6 de julho de 2020

O rebojo




Desde muito pequena ouço as pessoas falarem sobre rebojo e formava um conceito bem equivocado do que, realmente, se trata.
Imaginava, talvez pelo som da palavra em minha mente, que se tratasse de uma mudança brusca da direção do vento. Somente após minha visita à casa do Alfredo pescador e sua esposa Carmélia é que tomei conhecimento do real significado da palavra.
O que é um rebojo, mesmo? Trata-se de um vento muito forte, fortíssimo que causa pânico entre os homens do mar. Atualmente, a tecnologia, que já chegou às canoas, auxilia os pescadores artesanais e ninguém se aventura no mar quando a meteorologia anuncia esses ventos fortes. O rebojo. Mas nem sempre foi assim.
Eu era apenas uma criança e, quando acompanhava meu pai para comprar peixe, observava curiosa a movimentação no porto das canoas. Causava-me grande admiração o fato de os pescadores conseguirem se equilibrar com tanta destreza naquele piso em V do fundo das canoas e ainda remar, pois nesse tempo não havia motor para impulsionar a embarcação. Chegavam à praia e saíam com facilidade. Refiro-me às canoas maiores um pouco mais seguras, mas havia lá um senhorzinho, o seu Tomazinho, barba comprida e cabelo pelos ombros, ambos já totalmente brancos, cuja embarcação era mínima. Mal cabia ele dentro. E aportava na areia, a remo, trazendo o produto de seu trabalho em alto mar, utilizando-se apenas daqueles parcos recursos. A minha memória ainda registra a cena dele, aquela figura pequena e ímpar, chegando na praia. Às vezes, acontecia de pescar mais mangonas, uma espécie de tubarão de um metro e meio, mais ou menos, do que seu pequeno barco podia conter e precisar amarrar os pescados para fora da pequena embarcação e vir puxando os peixes enormes pela água. Alguma semelhança com o velho e o mar do Hemingway? Ele nunca chegou a saber quem eu sou, mas eu não o esqueço. 
Pois bem. Conversando com meu amigo Alfredo sobre minha admiração pela valentia do senhor Tomazinho, ele me interpelou dizendo que, antes dele, houve outro pescador, também velhinho, mais valente ainda. O seu Manduca. E passou a me contar uma história fantástica que envolveu esse valente pescador e o seu Antônio Domingos, avô do Célio, o domador de ondas, sobre quem já escrevi aqui neste espaço de lembranças.
Estavam os dois personagens citados pescando mais para o norte, nas ilhas Tamborete, de onde traziam muito peixe já meio processado, pronto para ser armazenado até, se fosse preciso, quando perceberam a aproximação de um rebojo, vindo do sul. Diante do perigo iminente, recolheram rapidamente seus petrechos e rumaram sem demora de volta para casa. Mas estavam longe e a tempestade formada por aquele vento intenso os surpreendeu quando passavam pela boca da barra do rio Itapocu. Seu Manduca não viu outra alternativa. Rumou a embarcação para entrar rio adentro e alcançar as águas mais tranquilas da lagoa formada por aquele estuário. As ondas que se formavam no mar naquele momento eram apavorantes e o esforço para se manter sem naufragar era intenso. O velho pescador no leme lutando pela sobrevivência de ambos só gritava para seu companheiro Antônio. “Rema e não olha para trás! ” Tente o leitor imaginar o pavor que o tomaria se o fizesse. Vagas enormes a persegui-los muito de perto. Felizmente conseguiram vencer essa força da natureza. Saíram ilesos da aventura contra o rebojo.
Cabe aqui a informação de que, nesse tempo, 90% dos pescadores não sabia nadar. Entravam no mar movidos pela necessidade de sobrevivência e valentia pura.

  

segunda-feira, 15 de junho de 2020

O antigo cemitério da lagoa de Barra Velha




Há algum tempo eu vinha querendo escrever sobre esse local que em mim exercia um fascínio sem explicação, mas detinha pouco, ou quase nenhum, conhecimento sobre ele. Até um dia em que uma querida sobrinha me falou sobre uma dissertação de mestrado realizada na Universidade da Região de Joinville que versava sobre o antigo cemitério. Enviou-ma e hoje posso discorrer sobre o assunto com bastante propriedade. A autora dessa preciosidade é minha amiga e conterrânea Angelita Borba de Souza, que fez uma profunda e séria pesquisa ao fazer seu mestrado, sob o nome de: Um patrimônio cultural em conflito. Muito agradecida e devidamente, autorizada pela autora da dissertação, hoje dou início a minha crônica.
A origem do nome, Barra Velha, tem várias explicações, mas, a mais corrente e viável, no meu entender, é aquela que Saint Hilaire cita em seus apontamentos, por ocasião de sua passagem por estas paragens há muito, muito tempo atrás. A barra do rio Itapocu, que dá origem à lagoa, antigamente situava-se na ponta da lagoa, onde hoje existe uma praça, mas se deslocava frequentemente até se fixar, mais ou menos, onde hoje se encontra. E o local ficou, então, conhecido com esse nome. Barra Velha não tem uma data fixada de quando teria começado a sua ocupação. Anotações dão conta de que caçadores e exploradores, de passagem por estas bandas, teriam aqui se fixado já nos séculos XV e XVI. Anteriormente este território era ocupado por índios Guaranis. Açorianos chegaram a partir do século XVIII. Iniciou-se, então, um povoado, um vilarejo de pescadores que se utilizava da lagoa aqui existente e do mar para a sua sobrevivência. A lagoa, além de garantir a sobrevivência das famílias dos pescadores, servia também para deslocamento entre vilas e era navegando por ela que eram conduzidos os mortos para a despedida final.
Atualizo a localização do antigo cemitério, para facilitar a compreensão do leitor. Situa-se às margens da lagoa, no bairro Quinta dos Açorianos, em Barra Velha, bem próximo a uma ponte pênsil ali construída. Cumpre informar que esse bairro existe porque seu território foi totalmente loteado para dar vazão à especulação imobiliária. Inclusive a construção da tal ponte teve a intenção de atrair turistas e fomentar o comércio dos lotes. Foi construída pela iniciativa privada em troca de tributos devidos. O espaço do antigo cemitério encontra-se entre esses inúmeros lotes. Até uma tentativa de aterramento do mesmo já foi feita por ocasião da dragagem da lagoa. A areia retirada começou a ser depositada ali com a intenção de fazer sumir qualquer vestígio que pudesse lembrar que um dia ali foram enterrados corpos de entes queridos, nossos ancestrais e, por certo, viabilizar a comercialização deste também. Felizmente o bom senso de alguns conseguiu embargar esse absurdo.
Barra Velha não possuía cemitério nos primórdios de sua existência. Seus falecidos eram enterrados em Armação (Penha) até, provavelmente, o final do século XVIII, pois há registro do primeiro enterro em janeiro de 1791. Considerado oficialmente como cemitério a partir do ano de 1800, passou a atender as populações de Barra Velha, a população ribeirinha, o Balneário Barra do Sul e Penha.
 No século XVIII começaram a surgir, na região, as epidemias. A denominada Câmara de Sangue (diarreia hemorrágica) vitimou muitos moradores. Sem assistência médica, a febre amarela e a varíola também fizeram vítimas. Meu livre pensar me faz concluir que esse fato foi o grande disparador para que se encontrasse um local adequado, muito longe da população, para enterrar os mortos em Barra Velha vítimas dessas doenças altamente contagiosas e que as autoridades de Penha impediram os enterros em seu cemitério também por medo do contágio. Os escritos de Angelita levaram-me a essa conclusão.
O cortejo era feito em canoas e, quando o falecido tinha uma estatura maior, era necessário que se amarrasse o caixão transversalmente em duas canoas e a navegação feita com todo o cuidado possível. Outras embarcações iam atrás levando familiares e amigos em meio a velas, flores, cantorias e muita tristeza no coração, por, aproximadamente, quatro quilômetros a remo. Mais tarde foi confeccionada uma canoa maior, a chamada defunteira. Era a canoa funerária que, pintada de preto, ficava ancorada às margens da lagoa aguardando a utilização.
Serviço funerário? Nem pensar. Os familiares e amigos providenciavam mortalha e caixão. Havia dois possíveis trajetos de acesso ao cemitério. Pelas águas da lagoa, ou pela praia da península, de carroça, e, na altura do cemitério, se fazia a travessia da lagoa. Em ambas as alternativas, a atuação do pescador se fazia absolutamente necessária. Havia dificuldades com o clima. Vento, frio e chuva traziam transtornos, tanto no transporte, como na abertura da cova, que era feita pelos próprios acompanhantes do féretro. Em tempos de chuva, abrir uma cova na beira da lagoa, fazia surgir água, havendo necessidade de abrir outra em outro local próximo.
Esse cemitério foi desativado em 1929 com a construção de outro no centro da vila. Provavelmente dada a dificuldade para se enterrar um ente querido, os moradores do local não se opuseram à transferência do cemitério da lagoa para o centro, embora haja registros de enterros feitos ali até 1938. Talvez por apego ao local, respeito aos antepassados e o não pagamento de taxas para realizar o enterro. Muitos corpos foram transladados para o novo cemitério. Outros tantos ainda permanecem lá.
Em minha próxima crônica vou abordar as inevitáveis histórias de fantasmas e terror originadas pelo cemitério da lagoa.


Observação importante. Para quem estiver interessado em fazer uma deliciosa leitura desse intrigante assunto, com detalhes, a dissertação de mestrado de Angelita encontra-se na biblioteca da Universidade da Região de Joinville.

domingo, 7 de junho de 2020

Ainda sobre livros




Acredito que todas os leitores compulsivos trazem esse gosto, essa tendência consigo ao nascer. Despertar e fazer crescer dentro de nosso ser o gosto pela leitura é um privilégio, creio, de poucos.
O lugar maravilhoso onde nasci oferecia a seus moradores, uns poucos veranistas e outros tantos visitantes uma natureza farta e exuberante em beleza, mas os recursos, em se tratando de educação, eram muito precários. Por conta disso, minha irmã e eu, aos 11 e 13 anos, tivemos que dar continuidade a nossos estudos em uma cidade próxima, Jaraguá do Sul, onde existia um internato de freiras alemãs da Ordem da Divina Providência. Logo nos primeiros dias, fazendo o reconhecimento do local, fui apresentada à biblioteca. Qual não foi minha alegria, espanto e admiração ao encontrar uma sala, cujas paredes eram cobertas por estantes lotadas de livros de todas as espécies. Nunca poderia imaginar que realmente existisse, de verdade, todo aquele tesouro. E, claro, virei “rata” de biblioteca. Ao longo de minha permanência no colégio devorei toda a obra ali disponível de M. Delly, romances para adolescentes que eu julgava serem escritos por uma mulher e somente há pouco tempo vim a saber que aquele M. não era de Madame. Esse era apenas o pseudônimo de um casal e escritores franceses. Fiquei triste, decepcionada. Estava certa de que quem escrevia aquelas lindas histórias que povoavam meus devaneios de adolescente romântica era uma amável senhora com os cabelos grisalhos atados à nuca. Ai... a imaginação fértil da garota sonhadora que fui um dia.
Nesse mesmo tempo e espaço, li quase toda a obra de José de Alencar com o qual me identifiquei muito, embora lírico e muito descritivo. Para mim aquela era a sala da magia e esse autor me conduzia a cenários inimagináveis, bem fora da realidade de então.
Tenho bastante simpatia por autores estrangeiros como Gabriel Garcia Marquez, Isabel Allende ou Ernest Hemingway, só para citar alguns, mas, como autêntica patriota ufanista até, meu interesse fica totalmente voltado para a maravilhosa literatura brasileira.
Uma obra lida que se destaca entre todas é Grande sertão: veredas, escrita por João Guimarães Rosa. Não tenho o hábito de reler os livros que leio, mas a leitura desse me foi tão prazerosa que, após ler a última frase da obra, voltei para a primeira página e iniciei a releitura imediatamente. O melhor de todos, sem dúvidas!
Outra obra, cuja leitura deixou marcas foi O cortiço de Aluísio de Azevedo. Ainda trago comigo os personagens mais marcantes dessa narrativa: Rita Baiana e João Romão. É bem provável que essa seja a minha próxima releitura.
E o que falar de Jorge Amado, cuja fase engajada politicamente lhe rendeu suas melhores obras. Capitães da areia é um belo exemplo disso. Pedro Bala, João Grande, Pirulito, Sem Pernas e os outros dão aulas de ética quando juntos ou individualmente, por mais paradoxal que possa parecer, por serem eles, os capitães da areia, um grupo de menores delinquentes. O autor manobra seus personagens de maneira sutil, às vezes nem tanto, e faz sua contundente crítica social. Não se pode dizer, no entanto, que suas obras da fase mais, digamos assim, comercial, não proporcionem momentos de delicioso entretenimento. Em todas há sempre, pelo menos, um personagem passando grandes lições de civismo e cidadania.
Érico Veríssimo, que conheci quando já mais madura, conseguiu me arrebatar com sua narrativa forte e tantas vezes misturada à realidade, sobretudo, política.
E aí vão tantos outros, não menos importantes e arrebatadores. Se me alongo mais, torno a leitura enfadonha e prezo muito os meus queridos leitores. Pretendo voltar ao assunto, sempre que me sentir empolgada.



domingo, 24 de maio de 2020

Leitura - uma preciosa ferramenta




Era apenas o início de 1950 quando vim ao mundo, pelas mãos de dona Maria Bastião, a bondosa parteira negra, cuja marcante característica era o pano branco, branquíssimo, amarrado à cabeça, para conter os cabelos rebeldes, e também a maestria com que exercia seu importante ofício na pequena aldeia de pescadores, localizada no litoral norte de Santa Catarina. Barra Velha.
Um universo deveras restrito, um canto do mundo isolado de tudo. Era rota de apenas uma linha de ônibus, que passava pela manhã da cidade de Itajaí, ao sul, com destino a cidade de Joinville, ao norte, de onde retornava no meio da tarde. Era a única forma de comunicação com o mundo. Lembrar dessa realidade, hoje, me dá a real dimensão de todo o progresso e avanço tecnológico que me foi permitido acompanhar desde então. Esse preâmbulo serve para introduzir e dar mais força para a história que vou escrever.
Meus irmãos mais velhos, sou a caçula, já frequentavam a escola, liam e sabiam muito mais coisas do que eu. Não via a hora de, pelo menos, saber ler também. Era tempo de “decoreba” e meus irmãos estudavam alto e bem cantado. Consequência disso, quando cheguei à escola, já havia decorado a tabuada, os estados e capitais do Brasil etc.
Enfim, dona Aventina Vailatti dos Passos, minha professora do primeiro ano escolar, no Grupo Escolar Pedro Paulo Philipe, ensinou-me a ler. E, daí por diante, não parei mais. Hoje, passadas mais de seis décadas, ainda sou uma ledora compulsiva e voraz. Esse grupo escolar possuía apenas duas salas de aula. Prova inconteste de que ninguém precisa de grandes estruturas quando deseja aprender.
Meu pai e grande incentivador da nossa cultura, frequentemente viajava para Joinville a negócios e de lá nos trazia livros, revistas, gibis e coleções como Diversões Escolares e Nosso Amiguinho. Era o nosso Google hehehe.
Entre os gibis, trazia-nos todos os da Disney, Bolinha, Luluzinha e outros que encontrasse. Maurício de Souza despertava seu talento para o desenho nessa época.
O comércio varejista de Barra Velha nessa época, para nós, eram a “venda” da dona Judite e da dona Madalena. Mas eu via, no gibi, a Luluzinha andar com um carrinho em meio a prateleiras cheias de produtos de todas as espécies e não entendia nada. Muito tempo depois vim a perceber que eram os supermercados. Eles já existiam nos Estados Unidos, onde a Luluzinha morava. E eu pude conhecer muito tempo antes por meio da leitura. Um exemplo banal, mas tente transportar isso para algo relevante e verá o quanto tenho razão.
Minha melhor professora de Português foi uma freira da ordem da Divina Providência, a Irmã Cléa. Ela veio da Alemanha com a família e se instalaram todos num sítio afastado, onde tinham medo de receber pessoas estranhas por não saberem falar o idioma local. Ela, persistente, encontrou uma Bíblia em português e comparando os textos com sua Bíblia em alemão conseguiu aprender a língua da nova pátria. Valorizo isso sobremaneira, uma vez que ainda encontro pessoas falando alemão em público, bem alto e bom som, sem ao menos terem nascido lá. Penso que, por respeito ao país que os acolheu, devessem falar sua língua de origem apenas na intimidade de sua família. No caso da freira, a leitura serviu não só de importante meio de comunicação entre ela, a família e a comunidade, como fê-la tornar-se uma excelente divulgadora da língua portuguesa.
Queria ter muito mais tempo para ler. Fico triste quando observo pessoas dando tratos ao ócio, quando poderiam ocupar seu tempo com boas leituras. Trar-lhes-ia um benefício incalculável. Pena...
Por outro lado, causa-me uma grande sensação de bem estar a certeza de, ao longo da minha carreira profissional, ter conquistado muitos bons leitores.
Costumo repetir que, quem não sabe é como quem não vê. Isto é, a ignorância causa cegueira. Uma boa leitura não apenas combate como também neutraliza esse mal terrível que é a ignorância.
Sabe-se que 95% do conhecimento humano está nos livros. Cabe-nos aproveitar, divulgar e conquistar mais e mais leitores para o bem da humanidade. Uma importante ferramenta que não pode ser desprezada.








domingo, 8 de março de 2020

Um domador de ondas




Penso que as pessoas que costumam ler meus escritos já perceberam minha predileção por temas que envolvem minha terra que também é a terra de parte dos meus ancestrais. Mais especificamente, gosto de enaltecer os feitos dos valorosos pescadores artesanais desta praia maravilhosa.
Com a devida permissão do próprio personagem da história de hoje, um descendente de família muito conhecida da minha, vou discorrer sobre o pescador Célio de Oliveira. Um improvável domador de ondas.
Digo improvável porque, em um determinado momento de sua vida, precisou lutar bravamente com a morte. E venceu!
Um câncer violento e agressivo consumiu-lhe as entranhas, obrigando a que os médicos precisassem lhe retirar praticamente todas as vísceras. Estômago, vesícula, baço e boa parte do intestino foram extirpados para lhe permitir a sobrevida. Chegou a pesar menos de 50 kg no período de sua recuperação. Mas venceu. E voltou à vida mais forte e valente do que nunca.
Lembro de tê-lo visto no porto das canoas há muito tempo. Usava um gorro de lã com as pontas enroladas para cima. Para mim, parecia saído de um livro do Hemingway.
Desde que voltei para morar definitivamente aqui, a base da minha alimentação passou a ser peixe pescado pelo Célio. Tenho uma grande admiração pela pessoa desse rapaz antes de saber de sua grave enfermidade porque, mesmo a despeito de todas as adversidades, sai todas as noites para pescar sozinho e, ao voltar para a praia, fica ali vendendo, ele mesmo, o produto de uma noite de batalha com o mar imenso. Não entrega seu pescado para atravessadores, que sequer molham os pés na água do mar, comercializarem. Desse modo, tenho peixe fresquinho sempre que desejo. Minha gratidão ao Célio por isso.
Por duas vezes já, e espero que sejam muitas mais, tive a ventura e o privilégio de vê-lo chegar ao porto das canoas.
Foram dias de mar agitado e ele chegava um pouco mais tarde, para minha sorte. Grandes ondas o esperavam na chegada. E lá vem ele, com sua canoa azul de nome Yoko, sozinho, fazendo das cordas do leme verdadeiras rédeas, a domar aquelas vagas ameaçadoras. Manobrava sua canoa como se fora um corcel a ir e voltar, sem medo de sucumbir.
Ao final, desconsiderando qualquer perigo, o grande vencedor do duelo permite que a onda vencida o traga suavemente para a margem.
Se não fosse por outras incontáveis vantagens de morar neste lugar, apenas o fato de poder assistir a cenas como essas já me teriam feito valer a pena viver neste pequeno pedaço do paraíso.