quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Amor que transcende



Meu neto Davi, o caçula da família, aos oito anos foi protagonista de um ato de verdadeiro heroísmo e demonstração do mais puro amor.
Sua mãe, minha filha Juliana, deixou-o, juntamente com o pai dele, em um local próximo à casa da vovó Lourdes, mãe do meu genro Luciano, e seguiu para seu trabalho. Os dois aguardariam ali o retorno dela, quando então iriam para a escolinha de futsal onde o Davi treina.
Era início da manhã, aproximadamente oito horas. No momento em que pai e filho atravessavam uma rua de grande movimento, o semáforo abriu e os dois correram a fim de concluir a travessia. Foi aí que o Luciano tropeçou e caiu, bem no meio da avenida. O Davi não teve dúvidas: posicionou-se à frente dos carros, bracinhos levantados e abertos, para conter o trânsito até que seu pai conseguisse se recuperar. Os carros pararam e tudo terminou bem!  Juliana, que viu o tudo pelo retrovisor, imediatamente entrou em um posto de combustíveis e veio em socorro dos dois. Esse fato ficou marcado em minha memória e não consigo impedir um nó na garganta toda vez que lembro dele.
Em outra ocasião, eu estava assistindo a um jogo de futsal do meu Pequeno e o Luciano, torcedor vibrante do time do filho, a cada gol levantava e se agitava muito. Terminado o jogo o Davi comentou que ficava preocupado com que o pai caísse da arquibancada ao pular e vibrar com os gols. Foram seis a favor e um contra.
Dia desses, eu estava em visita à casa deles e a Ju me mostrou um texto que o filho, agora com nove anos, escrevera na escola, onde teria que escrever a biografia de um adulto. Preciso registrá-lo aqui, pois fui levada às lágrimas ao lê-lo.
                                                  Meu melhor amigo
Quando nasci, senti e o vi.
Meu pai faz tudo pra mim. Me leva para a escola, me acorda cedo, faz o almoço etc.
Ele nasceu em 1970, dia 7 de outubro. Seu apelido é Lu, mas seu nome é Carlos Luciano Freiria. Pio e Lourdes, seus pais.
Quando tinha 21 anos, quando ia a faculdade, estava de bicicleta, sofreu um acidente que quase o levou à morte. O acidente foi assim:
Uma pessoa abriu a porta do carro sem ver meu pai, então a porta bateu no guidão da bike e meu pai voou em direção ao carro da frente e bateu a cabeça. Até hoje deixa marcas na cabeça. Depois do trauma voltou a jogar handebol e viajou para vários lugares como Roma, França, etc. Chegou a seleção brasileira de handebol como goleiro e foi o melhor goleiro do Brasil, conquistando muitas medalhas e troféus.
Trabalhou 25 anos como Professor de Educação Física e hoje é produtor de flores orgânicas. O que é isso? Flores que dão para comer, vendendo para restaurantes, mercados e pessoas com interesse por elas. Tem vários tipos de flores como a Capuchinho, mini amor perfeito e cravina. Ele é trabalhador ate hoje!
Essa e a biografia do meu melhor amigo que é meu Paizão ou pai.

Percebe-se amor e admiração em cada palavra!





domingo, 1 de novembro de 2015

Seria o Saci, ou a Velha Cabeluda?



Quando eu era pequena, na década de 1950, meu pai adquiriu uma carroça e duas éguas bem iguaizinhas, para nossos deslocamentos pelos arredores de onde morávamos, a praia de Barra Velha, em Santa Catarina.
Quando digo que eram iguais, não me expresso bem. Tinham a mesma cor, mas uma era ligeiramente maior do que a outra, além do que era muito mal humorada, mordia, dava coices, não se deixava montar, aceitava apenas os agrados e a montaria de minha irmã, a Ira.
Eu, claro, montava sempre a menor e saíamos pelas ruas, montadas em pelo, somente com o barbicacho e as crinas para nos segurar. Isso sim foi uma infância feliz! Minha irmã e eu tínhamos duas amigas gêmeas e nós quatro nunca nos separávamos. Grandes companheiras de aventura! A Maninha Grande, Marilda, montava a égua grande com minha irmã e a Maninha Pequena, Marília, e eu íamos passear montadas na égua pequena em segurança.
Lembro-me de uma ocasião em que, em pleno passeio, fomos surpreendidas por um temporal com raios e fortes trovões. As éguas se assustaram e começaram a galopar. A maior disparou com minha irmã e a Maninha Grande montadas nela, mas como minha irmã é uma santinha, acalmou o animal, por consequência a outra égua acalmou-se também. Eu já estava chorando nesse momento. Foi tenso, muito tenso!
Às vezes meu pai pedia para levarmos as duas éguas até um local denominado Coreia, naquele tempo, que atualmente é a chamada praia da Península, entre o mar e a lagoa, com o objetivo de os animais pastarem um pouco de capim salgado, pois isso lhes faria bem. Assim fazíamos regularmente até que um dia, enquanto íamos a pé até onde estavam os animais, uma maré de lua repentinamente alagou parte do caminho por onde retornaríamos. Passamos por dentro do caminho alagado montadas, com água batendo na barriga das éguas. Outro dos momentos inesquecíveis da minha infância.
Em outra ocasião, meu pai atrelou as éguas à carroça para levarmos uma carga de telhas até o  Sertãozinho, um lugarejo próximo de Barra Velha. Colocou capim seco do quintal recém carpido entre as telhas para que não quebrassem. Na volta, a carroça veio vazia, meu pai comandando as rédeas e minha mãe ao seu lado, sentados no banco. Meus dois irmãos e eu lá atrás, no meio do capim seco misturado com terra preta. Uma chuva torrencial alcançou-nos no caminho. Ficamos todos ensopados, minha mãe, meu pai, meus irmãos e eu. Nós três, sentados ali naquela carroça toda cheia de sujeira, ficamos sujos como porquinhos. Eu olhava aquelas casas de madeira muito simples na beira da estrada com crianças na janela, confortavelmente secas e aquecidas, olhando a chuva desejei muito estar morando em uma delas. Ao chegar a casa, um banho quente, um pijaminha de pelúcia bem quentinho com toquinha igual, (meu irmão, o Marinho, ficava muito engraçadinho com aquela toca) uma sopa igualmente quente e cama, evitou que pegássemos um resfriado por conta daquela aventura. Cuidados de uma mãe fada.
Não tínhamos espaço em nosso quintal para que nossas éguas pernoitassem ali. Meu pai pedia a gentileza para o seu Moacir Borba para que elas pudessem pernoitar em seu pasto, bem perto de casa. Todas as noites, nossa tarefa era levá-las até lá para o pernoite. Deixa estar que era história corrente entre o povo do meu lugar, que havia uma bruxa, ou Saci que trançava as crinas dos animais durante a noite. Eu não acreditava, pois nunca havia acontecido algo semelhante com nossos animais, até a manhã em que minha irmã e eu fomos buscar nossos animais, minha irmã deu aquele assobio característico e elas correram para a porteira. Pasmem! Eu vi as crinas das duas éguas perfeitamente trançadas. Eram tranças finíssimas feitas por alguém que teve tempo e habilidade para fazê-las.
Seria obra do Saci, ou da Velha Cabeluda? HAHAHAHA... Mistério!...

Irremediavelmente coruja



Sempre fui, declaradamente, uma mãe coruja. Penso que toda mãe o é, de alguma forma.  Só que, quando vieram meus netos, essa corujice potencializou-se.
Dia desses o João Guilherme, treze anos, filho de minha filha Kassandra, trouxe da escola um texto para concluir em casa. Ele sentou-se no chão do seu quarto, colocou o caderno em cima da cama e ali mesmo escreveu durante uns vinte minutos. Após, veio me mostrar o produto pedindo que eu apenas emitisse a minha opinião sobre o trabalho, sem revisar. Foi o que fiz, no entanto preciso deixá-lo registrado aqui neste blog, para que não se perca por aí em alguma gaveta.
 A proposta era para escrever um conto de aventura. Ele confundiu-se e acabou escrevendo um texto de ação. Comentei com ele que a aventura começa depois que acaba o conto, porque viver em um país da América do Sul é uma aventura e tanto! Ainda não tem título, mas minha ansiedade não deixa esperar.

Ainda era madrugada quando a casa da família White começou a tremer. O pai, Walter, foi o primeiro a acordar achando que era um assalto, já que o alarme havia acionado, mas quando percebeu o tremor, acordou sua mulher, Janis, e sua filha Riley.
Em poucos segundos a família toda entrou em pânico pegando tudo o que achava importante. Pela janela já era possível ver muita fumaça, alguns carros pegando fogo e casas destruídas. Quando conseguiram pegar tudo o que achavam importante, saíram e começaram a ouvir barulhos de explosões. Ao olharem para o céu, viram algo que parecia uma chuva de meteoros e em pouco tempo se ouviu o barulho de aviões, aviões caça e então se percebeu que era um bombardeio à sua cidade.
Aquilo parecia um apocalipse, todo o pânico e sofrimento visto claramente  no rosto de cada pessoa. Vendo isso, Walter sente um medo que nunca antes havia sentido, o de que esse momento fosse o último momento em que veria sua família, ou até pior, que fosse o último momento da família.
Em meio a uma confusão de sentimentos e pensamentos, Walter se lembra de que há alguns dias tinha visto uma notícia na internet uma notícia dizendo que poucos dias depois de os Estados Unidos terem invadido o Afeganistão para interferir na guerra, a Rússia e o Afeganistão criaram uma aliança entre si. Foi então que Walter entendeu o porquê do ataque à sua cidade, Washington. Uma guerra havia acabado de começar.
Com todo o caos da situação, os três tentaram ficar o mais próximo um do outro possível. Logo apareceram, aos poucos, soldados na rua orientando a população que fossem para perto da Casa Branca , onde havia alguns bunkers, que antes eram secretos.
Agora que todos sabiam para onde ir, não havia mais tanto alvoroço, até aparecer um homem com uma arma, que aproveitou a anarquia do momento e deu um tiro na cabeça de Riley. A menina caiu, já inconsciente no chão, Walter e Janis não tiveram nem tempo de reação, tiveram que continuar correndo para não serem pisoteados pelas pessoas. A única coisa que puderam ver foi o corpo de sua filha ser pisoteado.
No mesmo momento, o assassino foi visto por um atirador de elite, que lhe deu dois tiros, um no peito e outro na barriga. Essas foram as únicas mortes por tiros naquela situação.
Chegando aos bunkers todos foram informados de que seriam enviados para abrigos em diferentes países da América do Sul, onde teriam de viver até o final da guerra.



segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Sinhá Antonica




Ali na esquina da Rua Paraná e Av. Santa Catarina, em Barra Velha, residia em antiga casa de alvenaria de pedras e forte argamassa, uma senhora idosa e tronco de numerosa família, hoje espalhada por esses brasis.
As rugas marcavam sua face, batida pelo vento dos anos. Viera para Barra Velha, moça ainda, em sua viagem de núpcias, com o marido “seu” Lopes Moura, que a trouxera de São Francisco, pelo mar, em canoa grande, desembarcando na praia, para nunca mais voltar à sua terra e na verdade, nunca mais sair de sua nova morada.
Velhinha por todos respeitada e querida, carinhosamente chamada de Vovó ou Sinhá. Sempre conquistando novas amizades e conservando as que seu esposo deixara ao partir para o além, legando-lhe uma numerosa prole, que muito amava.
Pouco a pouco os filhos foram casando, transferindo-se de lá em busca de novas terras. Com Sinhá ficou Maria José (para nós, apenas Zeca), e o neto Nino.
Contam-nos que há cincoenta anos, pouco menos, nossos pais se hospedaram pela primeira de uma série de vezes, em casa de “seu” Lopes. É que, em busca de saúde, sol e mar, fora-lhes recomendado passar algum tempo em uma praia. Escolheram a São Pedro de Alcântara de Barra Velha que gozava de bom nome e era cantada por suas virtudes, além de ter sido um porto embarcadouro de mercadorias da costa, mas já a esse tempo em declínio, tinha renome como praia piscosa e farta.
A viagem de um dia bem aproveitado, só podia ser feita em carroça, mas todo sacrifício valia, pois, buscava-se a saúde.
O “coroa” aqui, ainda vagava no espaço, esperando a oportunidade, que demoraria um pouco, de vir incorporar-se à família. Por isso, não nos lembramos de nada...
A experiência foi tão boa que, a partir de então, Barra Velha nunca mais ficou mais de uns poucos meses sem a visita de nossa clã, por um dia, um mês, uma temporada e até, como agora acontece, para sempre lá estão residindo os dois culpados de havermos nascido... É como diz meu filho, “uma gamação até a medula”...
Em 1930 foi construída a casa de nossos pais. Anos mais tarde, Nino e nós, virávamos Barra Velha pelo avesso...
Formávamos uma dupla de amigos constantes, para tudo, inclusive, muita vez, suportando brigas “valorosas” em termos de: dois contra o resto...
Por isso mesmo, Sinhá Antonica com paciência e carinho, tratava as feridas e arranhões, lavando-os e pincelando iodo do bom... e quem disse que se conseguia escapar. Pois sim! Após, dava-nos reprimendas homéricas e prometia castigo ao Nino, o que equivalia a prometer a nós ambos. Valia a intenção.
Pela manhã bem cedinho a gente saía de casa e ia ajudar a Zeca a tirar o leite. Sempre sobrava uma caneca bem cheia, quentinho, ao natural, que saboreávamos com prazer enorme. Hoje, não sei não...
Nos fundos da casa da Vovó Antonica, um pomar com laranjeiras, tangerineiras, mamoeiros altíssimos, goiabeiras, um pé de araçá e outro de grumixama. Uma delícia, com ou sem autorização de Sinhá...
Por ali, Nino e nós caçávamos rolinhas, sanhaçus e tiés, mas estávamos proibidos de capturar e matar as “minhas” sabiás, como as chamava Sinhá Antonica. Todavia, vez por outra uma descuidada sabiá ficava bem em frente a uma rolinha e, sem querer, era abatida... essas coisas acontecem, sabe!?
Muitas vezes Vovó Antonica esperava o instante certo e quando tinha-se na mira do bodoque a sabiá, ela balançava sua comprida saia em voleios que assustava a passarinhada, mas ninguém reclamava, não! Fugia-se! Meia hora depois ela já havia esquecido.
Nós mesmos depenávamos as avezitas e a Zeca as limpava, cortava e Vovó Antonica preparava aquela farofa mais gostosa do mundo, adicionando quase sempre, um pedacinho de lingüiça e torresmo.
Até hoje sinto o gosto gostoso!
Nino, porém, adoeceu longamente e cedo demais foi para o outro lado da vida. Zeca, sua mãe, o seguiu pouco tempo depois, o mesmo fazendo Sinhá Antonica para ir reunir-se com aqueles entes queridos que em tão estreita comunhão viveram.
Hoje, embora tudo seja diferente, quando por lá passo, revivo cenas assim:
- Bênção Vovó Antonica!, e a ouço responder:
Deus T’abençoe, meu filho. Segurava-me a cabeça entre as mãos, beijando-me a testa e completava:
Este ano não vai ter estrepolia, não! Vocês já tão ficando grande. Amarro tu e o Nino num pé de laranjeira! Moleque safado! E tornava a abraçar-me e beijar-me.
Tudo passou. Só restou a saudade. A boa saudade!
Até um dia, Vovó Antonica!

O Dr. Roberto Hélio Ramos Alvim escreveu essa crônica sobre minha avó Antonica na década de 1970. Na ocasião em que lhe fiz uma visita, já no século XXI, a ele e à sua amada Terezinha, com a intenção de lhe pedir autorização para transcrever aqui o seu texto, conversamos longamente. Ele naturalmente acedeu ao meu pedido e ficamos “trocando figurinhas” por um bom tempo. Momentos preciosos foram aqueles.
Alguns anos depois de minha visita, ele partiu para o outro lado da vida também.  Chegou o dia em que iria se reencontrar, lá em outras paragens, com minha avó e seu grande amigo Nino para matar todas as saudades sentidas por aqui.
Fui tomada de grande comoção ao reescrever sua crônica. Pessoas assim tão do bem não deveriam nos deixar nunca. Minha fé me assegura nosso reencontro também.

domingo, 28 de setembro de 2014

A lembrança mais antiga





Bastava atravessar a ruazinha de pedras, -  aquela que eu imaginava ser a minha e que eu mandaria ladrilhar com pedrinhas de brilhante -  pular um valo, não muito estreito devido à erosão, e já estávamos na propriedade da minha avó Antonica. Antes de chegar a casa dela, havia, à esquerda, a passagem obrigatória pelo barracão enorme o qual, em outros tempos, servia de abrigo para os cavalos, meio de transporte da família na época. Grandes toras de madeira a sustentar o telhado coberto por telhões antigos, muito antigos. Mas o que atraía a nossa atenção eram os ovinhos de lagartixa, pequenos, bem redondos e muito brancos, que convidavam a brincar, porém, apesar da tentação, tínhamos que deixar exatamente no lugar onde estavam para que mais lagartixinhas pudessem nascer.
Tudo visto revisto, explorado e examinado encaminhávamo-nos, então, à casa da avó já vazia, pois ela, com uma idade bastante avançada e uma perna fraturada, morava em nossa casa. A dela era uma casinha branca, pequena e quadrada com janelas em um tom de marrom, situada bem na esquina com a rua da lagoa. Uma grande área de quintal que ocupava a quadra inteira. Aqueles cômodos abandonados contavam a história tão feliz quanto triste daquela família pioneira.
 Nesse tempo eu tinha apenas quatro anos, mas tenho nitidamente registrado na memória a cama de ferro pintada de azul, a avozinha sentada, recostada em travesseiros a contar histórias e mais histórias. Nós, netinhos, aprendemos o alfabeto com ela, com direito ao ipicilone e ao dublevê. Era a veia da educadora pulsando ainda em seu corpo já tão debilitado.
Minha avó foi uma das primeiras professoras daquela comunidade, por isso mereceu a homenagem de ter uma escola do município com seu nome. Mais tarde, uma de suas filhas lhe seguiu o exemplo e passou a lecionar na comunidade também. Meu pai contava com orgulho que, ainda pequeno, via sua mãe sair para lecionar nos arredores da sede do município montada de lado em seu cavalo e sua saia ampla e rodada a cobrir parte da montaria. Ele contava e eu fechava os olhos para visualizar essa imagem tão linda.
Essa veia do magistério pulsa em muitos de seus descendentes. Há muitos mestres educadores na família atualmente. Eu mesma lhe segui os passos, militei na profissão por anos a fio, sempre atuando com paixão pelo que fazia, dedicando o melhor de mim ao meu trabalho.
A escolinha que levava o nome de minha dedicada avó e situava-se entre as duas entradas para a praia do Grant, na Itajuba, hoje não existe mais. O aumento da demanda de alunos na localidade exigiu que outra escola fosse construída, maior e mais bem equipada. O nome de minha avó, Antônia Higina da Graça Moura, foi substituído pelo nome do pai do prefeito da época.
Não me cabe aqui questionar os critérios que levaram os políticos de então a proceder à mudança dos nomes da escola, mas me reservo o direito de achar que tal atitude configurou-se em uma injustiça sem tamanho.
Devo me conformar. Nós seres humanos somos imperfeitos e todos temos nossas mazelas. Deus abençoe a minha avó, ao pai daquele prefeito, a ele próprio e a todos nós.

domingo, 21 de setembro de 2014

Mané Carrinho



Morava em Barra Velha, Santa Catarina, nas décadas de 1940, 1950, um senhor muito querido por todos,  bom papo, divertido, principalmente por contar histórias saídas de sua imaginação fértil, sem nenhum compromisso com a verdade. Seu nome, Manuel de Moura, mas todos o conheciam por Mané Carrinho. Logo que chegava a qualquer ambiente, imediatamente era rodeado pelos amigos ávidos por ouvir a sua última história.
Vivia sempre alegre, sorridente embora a vida não lhe sorrisse com fartura de bens materiais. O pouco que possuía era-lhe suficiente para viver feliz e fazer feliz, com suas histórias, quem o conhecia. Morava numa vila de pescadores entre o mar e a lagoa, logo depois do areão que foi destruído para que ali construíssem um Iate Clube. Sacrilégio!
Todo final de tarde, ele e toda a comunidade masculina local reunia-se na garapeira, de propriedade do Sr Ormélio Gonçalves, para atualizar os assuntos de política e outros. Ali se resolviam todos os problemas da cidade, estado, ou nação. Ali também se passava em revista a vida dos moradores do local. Ninguém escapava. Os clubes de futebol tinham ali os seus times festejados ou execrados, reforços contratados, técnicos demitidos, ou admitidos.  O tenente Rodrigues, delegado de polícia da época no local, batizou, muito apropriadamente, a garapeira do seu Ormélio de Café Veneno.
Essa garapeira ficava situada na beira da lagoa, bem na sua extremidade, sendo que os fundos tinham as estacas de sustentação já submersas. A população de siris e caranguejos naquele local era grande, atraídos pelos dejetos da cana que eram ali lançados. Provavelmente todos gordinhos e diabéticos. Mas a parada dos veranistas e também a nossa, os nativos, nesse local depois do banho de mar era obrigatória. O caldo de cana delicioso, às vezes com limão, dependendo da vontade do consumidor, impedia que se passasse por ali sem provar, pelo menos um copo. Essa é uma lembrança boa.
E seguia o Mané Carrinho a contar casos e arrancar risadas dos presentes todo final de tarde. Eu não me fazia presente nessas ocasiões, mas ouvia alguém contar as histórias no dia seguinte. A presença de mulheres, muito menos de menininhas era totalmente proibida naquele horário no Café Veneno, ou seja, na garapeira.
E ele contou que um dia, chegou a casa, ao anoitecer, com muita vontade de ouvir boa música. Pegou na estante um disco em 78 rotações do seu ídolo, Orlando Silva, e colocou-o na vitrola. Esperou alguns segundos que o concerto começasse. Só então lembrou que naquela comunidade não havia energia elétrica ainda. Ficou muito revoltado, jogou o disco pela janela e foi dormir lamentando por não ter podido ouvir seu ídolo.
Mas a história não termina aí. Estava o Mané Carrinho dormindo tranquilamente quando, alta madrugada, veio a surpresa. Orlando Silva cantava a plenos pulmões lá fora. O som vinha dos lados da laranjeira.  E não era sonho, não. Levantou-se de um salto e foi verificar o que estava ocorrendo. Contou ele que o disco, ao ser jogado por ele pela janela, foi parar nos galhos de uma laranjeira do seu quintal. Veio a brisa do mar e fez com que o mesmo girasse. Encostado em um espinho da árvore começou a tocar com um som da mais alta qualidade para deleite do Mané.
Esse foi um causo contado pelo folclórico Mané Carrinho. Não é de se admirar que todos gostassem tanto de ficar em sua companhia ouvindo suas histórias. A estante, o disco, a vitrola, são frutos da sua imaginação imensamente alegre e feliz. 
Pretendo contar ainda outras histórias desse homem tão querido na comunidade e valorizar um tempo em que, embora sem recursos, vivia-se feliz, alegre e contente por lá. 
Importante registrar esses fatos que compõem a história de um lugar e de um povo. Tenho muito amor e carinho por meu torrão natal. Orgulho-me de ter nascido nesse pedacinho de Brasil, Barra Velha.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Pequeno grande universo





Era da vontade de minha mãe que minha irmã e eu brincássemos com meu irmão um pouco mais velho do que nós. Éramos bem pequenos e dormíamos no mesmo quarto, os três. Tínhamos um gatinho malhado de branco e preto, cujo nome já me foge à memória, que sempre estava conosco e era muito amado. Nossa mãe só não permitia que ele dormisse no quarto, preocupada com a bronquite dos filhinhos, minha e do meu irmão. O que fazíamos então para ter a companhia de nosso bichinho de tanta estimação, nem que fosse apenas por algumas horas? Ao acordar de manhã bem cedinho, com todo cuidado para não fazer barulho, amarrávamos nossas calças de pijamas pelas pernas e colocávamos aquela tereza para fora da janela. O gatinho, esperto, não esperava que o convidássemos. Agarrava-se na corda improvisada e o içávamos para dentro, onde ficava conosco, bem quentinho, até a hora de levantarmos. Imagino que nossa mãe fazia vistas grossas para essa manobra radical que, para nós, era pura adrenalina.
Tenho lembranças de que ela comprava carrinhos, os nossos “autinhos” para brincarmos brincadeiras de menino com nosso irmão. E lá íamos os três para debaixo da casa, a fim de traçar o nosso sistema viário, ao custo de muitas e doloridas cabeçadas nas vigas do assoalho. As ruazinhas traçadas na areia ligavam o nosso restrito mundo conhecido, o nosso universo. Começava em Itajaí, passava por Barra Velha, daí para Joinville, onde moravam alguns parentes e acabava em São Paulo, terra dos parentes da nossa mãe. Salientando que sabíamos da existência de Itajaí porque havia uma linha diária de ônibus que passava de Itajaí para Joinville pela manhã e retornava no final da tarde e passava em frente a nossa casa. A garagem de todos os “autinhos” era embaixo das nossas camas. Tínhamos tanto carros de passeio, como também caminhonetes e caminhões. Na época da Páscoa estes amanheciam lotados de ovinhos de chocolate. Esse coelhinho!... cada vez mais me convenço de que tivemos um anjo que nos acompanhava em todos os momentos e sabia de todos os nossos movimentos. Mãezinha... quanta saudade... com ela aprendi tanto, inclusive e principalmente a fazer “limonada” com os “limões! Que a vida nos dá. E nisso ela era especialista.
Quando foram a São Paulo, minha irmã Ira, meu irmão Marinho e minha mãe (eu fiquei) para que meu irmão fizesse uma cirurgia, trouxeram de presente para ele uma bicicleta infantil vermelha, linda e atraente. O problema é que nós duas não podíamos nem pensar em chegar perto dela. A bicicleta da Tute, nossa irmã mais velha, era totalmente proibitiva para nós. O que fazer? Aprender a andar de bicicleta às escondidas, enquanto ela estivesse no trabalho. Sem outra alternativa, foi o que fizemos. Numa dessas andanças furtivas, íamos, a Ira e eu, uma em cada pedal, ruazinha a fora. Sobe, desce, sobe, desce... até que, ao virar uma curva para o lado onde eu estava, o tombo inevitável aconteceu. Lá fui eu parar dentro daquele valo, felizmente sem água, a bicicleta por cima de mim e a Ira por cima da bicicleta. Ai que dor! Chegando a casa, nem pude me queixar para não denunciar o delito do empréstimo compulsório daquela bicicleta horrível! Passado o susto e as dores, daí a alguns dias já estávamos nos divertindo com ela novamente.  Isso quando não almoçávamos bem rápido e, enquanto meu irmão terminava seu almoço com calma, rapidamente nós duas nos apossávamos da bicicletinha vermelha, tão gostosa de andar e nos divertíamos nem que fosse por pouquíssimos minutos.
Não posso deixar de agradecer a meus pais que sempre se preocuparam com nossa cultura, mesmo naquele lugar delicioso, mas tão sem recursos. Meu pai, toda vez que voltava da cidade trazia livros e revistas para nós. Assinava Nosso Amiguinho, Diversões Escolares e também trazia uma fartura de revistas para entretenimento de todos.
Hoje meu olhar alcança longe, os muitos livros que li deram-me a dimensão do mundo, no entanto percebo que não preciso muito mais do que aquele pequeno grande universo que desenhávamos embaixo da casa.